Incêndio do Museu Nacional: análises e impressões de especialistas #2 - Cintia Rodrigues

Comprometidas não somente com a divulgação do trabalho de mulheres especialistas, o Mulheres Também Sabem também concentra esforços na valorização da ciência, da cultura e da educação em nosso país. Diante do incêndio no Museu Nacional, pedimos às nossas especialistas cadastradas cujas áreas foram diretamente atingidas por essa tragédia para que fornecessem suas impressões e análises acerca do ocorrido. Motivados pela pergunta "Como você vê os impactos do incêndio no Museu Nacional para o desenvolvimento da sua área no Brasil?", os textos aqui publicados refletem a experiência e a opinião de nossas especialistas cadastradas, mas não necessariamente a do site ou de suas editoras. A segunda contribuição é de Cintia Rodrigues, museóloga da Universidade Federal do Alagoas.

 

O Museu Nacional é uma referência para as instituições museológicas do Brasil, criado em 1818 para salvaguardar a história natural deste país, tem papel fundamental no desenvolvimento da ciência e projeto de modernização do nosso país.

Neste momento todos os profissionais de museus, de inúmeras áreas de conhecimento, pois um museu tem um caráter multidisciplinar indiscutível, somos viúvas. Sofremos uma perda irreparável, que embora trágica, nunca deixou de ser prevista.

Os profissionais e pesquisadores em museus estão sempre discutindo, informando, alertando sobre os riscos que estas instituições correm, sofremos os mesmos problemas. Não nos escutam, e agora ainda minimizam a nossa dor.

Ao contrário do que se ouviu recentemente, falamos muito sobre isso, a exaustão, nos silenciam ao extremo, pois há outras prioridades, outros interesses. Perde-se o patrimônio, perde-se parte da memória, seguimos agora vendo o exemplo real do descaso com o que deixamos para gerações futuras: nada de muito. E é triste, porque são tantos outros museus que a qualquer momento podem ser fadados ao mesmo fim, como tantos que já passaram por isso.

O amor pelo museu que agora nos acusam de não ter sido tão explicito ou colocado em cadeia nacional, existe, está no trabalho diário, nos pequenos salvamentos (falta de energia, vazamentos, infiltrações, invasões, furtos, entre outros). Se nos ouvirem podemos fazer listas enormes, de fatos inimagináveis.

É inacreditável, mas trabalhamos duro, os museus públicos agonizam e quem está dentro dele lamenta, tenta ser o mais criativo possível para remediar tanta adversidade.

Neste contexto onde se diz que servidores públicos são os culpados em quebrar a nação, gostaria de convidar os políticos ou gestores, seja lá como se intitulam, para visitar um museu além de sua exposição e ver em que condições temos que trabalhar, com mínimos e escassos recursos.

Muitos de vocês desistiriam, nem tentariam, não tem nenhum privilegio, nem chances de barganha, mas não podemos, temos compromisso, um visitante que sai satisfeito, uma criança que se encanta, é muito, a recompensa que nos move.

E repito amamos o que fazemos, choramos e cobramos de nós mesmos por não fazermos mais, e só cessamos depois de muitos nãos e sinais de indiferença a nossos pedidos, muito está além do que podemos ou temos força para fazer.

Dedicamos grande parte de nossa vida a pesquisa, manutenção, preservação do patrimônio e tentamos ter esperança, mesmo com esse grande incêndio nos queimando e tornando cinzas inúmeros registros importantes para construção de conhecimento neste país.

A museologia chora, vive um luto que nos negávamos a imaginar, e que desgraçadamente, segue possível de precedentes. Por favor, nos ouçam! Não contribuam para a queima de mais museus!

 

Cintia Rodrigues

Graduada em Museologia pela Universidade Federal de Pernambuco (2013) e com mestrado em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Pernambuco (2015). Atualmente é Museóloga da Universidade Federal de Alagoas. Tem experiência na área de Museologia. Atuando principalmente nos seguintes temas: Documentação Museológica, Gestão de acervos, Descrição de Arquivo e Planejamento de Ações Educativas

 

 

Carolina Moehlecke