Incêndio do Museu Nacional: análises e impressões de especialistas #1 - Tatiana Bina

Comprometidas não somente com a divulgação do trabalho de mulheres especialistas, o Mulheres Também Sabem também concentra esforços na valorização da ciência, da cultura e da educação em nosso país. Diante do incêndio no Museu Nacional, pedimos às nossas especialistas cadastradas cujas áreas foram diretamente atingidas por essa tragédia para que fornecessem suas impressões e análises acerca do ocorrido. Motivados pela pergunta "Como você vê os impactos do incêndio no Museu Nacional para o desenvolvimento da sua área no Brasil?", os textos aqui publicados refletem a experiência e a opinião de nossas especialistas cadastradas, mas não necessariamente a do site ou de suas editoras. A primeira contribuição é de autoria de Tatiana Bina, doutora em Arqueologia.

 

            O incêndio do Museu Nacional é certamente a maior tragédia que a Arqueologia Brasileira já sofreu. O Museu não armazenava apenas belos objetos, era o depositário de conhecimentos produzidos ao longo de trabalhos de escavação por todo o país e do estudo das coleções ali armazenadas. Ou seja, era uma “caixa-forte” de muito do conhecimento sobre a Arqueologia no Brasil. Para a produção do conhecimento científico a tragédia é inestimável. É praticamente impossível que um arqueólogo brasileiro não tenha frequentado o prédio do Museu, seja fazendo pesquisas, seja frequentando cursos e colóquios; todos os profissionais perderam uma das suas casas mais antigas e valorosas. É igualmente a maior tragédia que um museu arqueológico já experimentou. A arqueologia é uma disciplina muito recente no país. Embora os museus arqueológicos tenham crescido nos últimos anos, apenas um parte muito pequena da população tem acesso a esse tipo de saber e conta com a chance de fruir não só de uma exposição mas da produção de conhecimento e sua difusão no próprio local. Não por acaso, poucos tinham conhecimento do volume e do valor dos bens ali salvaguardados; o trabalho de ensino sobre a profissão, o campo do conhecimento e o valor cultural dos artefatos ainda são incipientes face às dimensões, aos problemas e à falta de comprometimento com a cultura do país.     

            Trata-se de uma destruição sem precedentes tanto pela quantidade de peças em seu acervo, quanto pela importância que elas tinham. Muitas eram peças únicas e raras, testemunhas de épocas das quais eram vestígios sem par. Se é verdade que existia uma Luzia, algumas múmias e outros objetos dignos de maravilhamento, capazes de despertar comoção por si só, é preciso contar à população e aos cidadãos brasileiros — prejudicados eternamente pela falta dessas coleções — que a Arqueologia também se faz dos inúmeros pequenos fragmentos guardados em reservas técnicas. Um pedacinho de cerâmica encontrado em um sítio e armazenado em Museu pode indicar a frequência de comércios longínquos. Pode contar sobre a existência de divindades, de casamentos, sobre os hábitos de consumo alimentar, sobre as cores e padrões estilísticos de quem produziu o utensílio. Pode dar pistas sobre a época de ocupação de todo um território. Cada pequeníssima peça guardada no Museu Nacional era capaz de nos falar sobre um mundo imenso.

            Estão perdidas para sempre as perguntas que deixaremos de poder fazer. Nenhum estudo encerra o conhecimento que um vestígio arqueológico pode nos trazer. Se é verdade que existem cópias de muitas dissertações de Mestrado e Doutorado, além de fotografias de objetos que estavam expostos em vitrines e guardados no acervo, elas são só uma ínfima parte do que podemos aprender com os recursos que estava ali acondicionados. O trabalho de um arqueólogo é fazer perguntas: aos vestígios materiais, aos sítios arqueológicos, à paisagem. As perguntas e a interpretação são condicionadas aos conhecimentos prévios acumulados até àquele momento, mas também aos desenvolvimentos científicos. Os conhecimentos tecnológicos das últimas décadas revolucionaram de maneira sem precedentes os estudos arqueológicos. O computador permitiu que a Arqueologia trabalhasse em grandes dimensões, tanto de sítios, como de banco de dados; cruzando informações e produzindo conhecimentos pautados não apenas em um ou dois casos, mas em milhares. Os estudos de DNA foram e são importantíssimos para os esqueletos humanos de várias épocas, fornecendo dados sobre doenças e migrações. Esses são só dois exemplos. Não sabemos o que está por vir, mas sabemos que os vestígios e informações perdidas nunca mais poderão ser questionadas. É um pedaço do passado que foi arruinado.

            Se não foi a primeira vez que algo assim aconteceu — grandes tragédias como a queima da Biblioteca de Alexandria não param de ser citados -—, desta vez, esse erário estava sob a nossa responsabilidade. É nossa falha enquanto parte da sociedade brasileira ter permitido que isso acontecesse. Para qualquer um que tenha visitado o Museu nas últimas décadas o incêndio não causa surpresa. O abandono do qual ele foi vítima é fruto de um descaso sistemático de sucessivos governos e esferas políticas. Como qualquer um que conhecesse o Museu razoavelmente bem sabe, seus professores, funcionários e alunos lutaram bravamente todos esses anos pela manutenção e preservação desse patrimônio, mas recursos financeiros são, sim, fundamentais! Um acervo como esse é um tesouro e como tal precisa ser cuidado, protegido e estudado. Se iniciativas privadas que queiram ajudar financeiramente são bem-vindas, isso não exime o poder público. Em última análise esse patrimônio não é responsabilidade de uma empresa, é nosso como nação. Essa falha marcará a História da Arqueologia Brasileira para sempre. A área não acabou, mas se vê desprovida de dois séculos de conhecimentos acumulados nesta instituição e de milênios de saber por descobrir. Quem escolhe ser arqueólogo, o faz com uma missão especial: desvendar e tutelar pelas riquezas de um país… mas é impossível fazer isso sozinho. Que o incêndio sirva ao menos para que se tome uma consciência definitiva sobre esta realidade.

 

image.png

Bacharel e Licenciada em História pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP); Mestre e Doutora em arqueologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP). Trabalhou como Supervisora de Programas e Pesquisas no Laboratório de Arqueologia Romana Provincial da Universidade de São Paulo (LARP-USP).

Carolina Moehlecke