A chance de um painel formado exclusivamente por homens ser algo aleatório é baixíssima*

Se, por um lado, eventos com paineis inteiramente formados por homens são vistos com frequência, por outro, as críticas à falta de mulheres nessas situações vem crescendo cada vez mais. Quando surgem as críticas, porém, as reações dos responsáveis costumam ser duas: ou a organização reage informando que a formação exclusivamente masculina do painel se deu por acaso, como resultado de um processo de busca das pessoas mais qualificadas para debater o tema; ou há a justificativa de que não foi possível encontrar mulheres especialistas que estivessem disponíveis. Embora estes cenários sejam perfeitamente possíveis, eles são bastante improváveis. E para demonstrar que a probabilidade estatística de que um painel formado exclusivamente por homens simplesmente “ocorra” é, na verdade, muito pequena, nós trazemos a tradução de um artigo publicado originalmente na The Atlantic, em outubro de 2015. O artigo original, em inglês, pode ser acessado aqui. As passagens grifadas no texto são nossas.

Apesar do texto ilustrar o problema da subrepresentatividade de mulheres especialistas em campos da ciência, engenharia, matemática e tecnologia, o raciocínio se aplica à imensa maioria das áreas do conhecimento. Aguarde nossos próximos posts sobre isso!

 

A chance de um painel formado exclusivamente por homens ser algo aleatório é baixíssima*

A fórmula elaborada por um matemático sugere que paineis formados inteiramente por homens não “acontecem simplesmente”, a despeito do que os organizadores de conferências possam alegar.

Paineis formado exclusivamente por homens se tornaram tão comuns que existe até uma página no Tumblr dedicada a fazer piadas sobre eles. O grande número desses paineis pode nos deixar confusas e convencidas de que esta realidade é inevitável.

O matemático Greg Martin, que desenvolveu uma análise de probabilidade estatística que até a maioria dos amadores consegue entender, desmistifica essa realidade. Trabalhando com uma premissa “conservadora” de que 24% dos doutorados em Matemática foram concedidos a mulheres nos últimos 25 anos[1], ele demonstra que é estatisticamente impossível que um painel de conferencistas incluindo apenas 1 mulher e 19 homens seja aleatório.

A explicação da fórmula de Greg é divertida: envolve o uso de bolinhas de gude e um colega de quarto potencialmente desconfiado[2]. A subrepresentação de mulheres em listas de conferencistas não “acontece simplesmente”, a despeito do que muitos organizadores de conferências afirmam.

Depois de fazer os cálculos, Martin mostra que o argumento de que conferecistas são escolhidos sem nenhum viés simplesmente não se sustenta. De fato, quando utilizamos a fórmula para analisar uma lista de conferencistas em um evento da área de Matemática – que trazia apenas 1 mulher e 19 homens – ele descobre que seria 5 vezes mais provável que mulheres fossem superrepresentadas na lista do que subrepresentadas.

A fórmula pode ser facilmente aplicada a outras áreas; bastam dados confiáveis sobre a distribuição de gênero no campo, o que normalmente pode ser obtido por associações de classe e estatísticas governamentais.

Eu conversei com Martin sobre a sua análise, suas implicações, e se sua fórmula pode finalmente convencer organizadores de eventos a pararem de inventarem desculpas.

Lauren Bacon: O que o motivou a calcular a probabilidade estatística de listas de conferencistas totalmente masculinas?

Greg Martin: Enquanto eu adoraria dizer que a ideia foi originalmente minha, esse não foi o caso. Eu me deparei com uma Calculadora de Distribuição de Diversidade em Conferências na Internet, feita pelo Aanand Prasad. Prasad credita a inspiração da ideia a comentários feitos por Dave Wilkinson e Paul Battley.

Um comentário paralelo: seguir os links de Prasad para alguns dos comentários leva a outras duas páginas – esta e esta – que são discussões sobre conferências na área de tecnologia nos últimos três anos e que foram criticadas por praticamente só convidarem homens. Ler o restante dos comentários revela o quão desdenhosas e defensivas as pessoas ficam quando a disparidade de gênero é apontada. Infelizmente, nós ainda temos um longo caminho a percorrer.

Bacon: Se eu entendi a sua conclusão corretamente, as chances de que haja zero mulheres na lista de palestrantes em uma confereência de Matemática são próximas a zero.

Martin: Se os conferencistas estivessem sendo escolhidos por um sistema que tratasse gênero de maneira justa (o que quer dizer, no qual gênero não fosse um fator), então em qualquer conferência com mais de 10 palestrantes, seria extremamente raro não haver nenhuma mulher conferencista – menos de 5% de chance, dependendo das premissas sobre o percentual de mulheres na Matemática como um todo.

Se vemos essa afirmação por outro lado, nós concluímos que qualquer conferência sem nenhuma palestrante mulher deve ser o resultado de um sistema que não trata a questão de gênero de forma justa.

Bacon: Então, por que tantos eventos de STEM[3] ainda colocam tão poucas mulheres no rol de palestrantes?

Martin: Há muitas razões pelas quais um evento de STEM tenha tão poucas mulheres entre seus palestrantes. Sexismo e misoginia abertamente declarados são raros hoje em dia (eu espero!), mas ainda acontecem. Muito mais comum, acredito, é o fato de que todos nós carregamos vieses implícitos – preconceitos internos, difíceis de serem detectados em qualquer instância individual, contra a ideia de que mulheres possam ser excelentes em ciência e matemática. Esses vieses já foram demonstrados que são capazes de literalmente alterar a nossa percepção sobre mulheres em campos STEM, de maneira que nós as avaliamos como sendo menos bem-sucedidas que homens com CVs idênticos. Essa avaliação (não-intencional) injusta das mulheres por organizadores de conferências, juntamente com a tendência psicológica de primeiro imaginarmos os estereótipos representativos de categorias (por exemplo, homens matemáticos), os leva a elaborar listas de palestrantes que são disproporcionais no número de homens.

A menos que nós conscientemente tentemos observar a composição de gênero em conferências, esses mesmos vieses não nos deixarão nem notar que o fato de haver pouquíssimas mulheres é o resultado de um processo injusto; assim, a injustiça é perpetuada.

Bacon: No setor tecnológico, há quase uma aderência evangélica à religião da meritocracia, não importam quantos estudos provem que todos nós temos vieses inconscientes – e, da mesma forma, as estruturas e processos que criamos (como processos seletivos de empregos, programas de universidades, e chamadas para palestrantes). Isso também é verdade no campo da matemática? O que você diria a organizadores de eventos que argumentam que eles não estão tentando fazer uma seleção aleatória de palestrantes, mas simplesmente escolhendo os melhores (seja qual for a maneira que isso é medido)?

Martin: A ideia de meritocracia é com certeza parte da cultura da Matemática – tanto a ideia de que a a meritocracia é o estado desejado para a nossa disciplina e (de forma mais implícita) quanto de que é também o estado da disciplina em prática. Infelizmente, como a pesquisa mencionada sobre vieses implícitos demonstra, na prática nós não somos muito bons em avaliar o sucesso das pessoas de maneira independente de preconceitos culturais como gênero (e também etnia, idade e afiliação).

Quando você se direcionar a um organizador de eventos (ou a qualquer pessoa) que se oponha a prestar atenção em questões de gênero devido a argumentos meritocráticos, o passo crucial é chamar atenção explícita para a premissa básica por trás desse argumento: eles estão assumindo que o sistema atual é puramente meritocrático na prática, e que os esforços para introduzir gênero no processo decisório são necessariamente uma adição à injustiça. No fim, ajudar alguém a aprender pela simples apresentação da verdade nunca vai funcionar se essa pessoa já tem uma falsidade conflitiva na sua cabeça.

Então, eu acho que é importante afirmar de forma explícita que o sistema atual, na prática, é falho e sistematicamente enviesado, e que o esforço para introduzir a questão de gênero no processo decisório é, na verdade, uma subtração de injustiças – um esforço para trazer a realidade mais próxima à meritocracia teórica que todos desejamos.

Bacon: Um dos pontos mais convincentes que você faz em sua análise é que se as listas de palestrantes fossem realmente selecionadas sem vieses, seria 18 vezes mais provável que nos deparássemos com uma superreprsentação de mulheres palestrantes do que com uma subrepresentação. Você já viu alguma lista de palestrantes (em algum evento que não fosse especificamente direcionado a mulheres) que fosse pesadamente distorcido a favor de mulheres?

Martin: Essa é uma ótima pergunta, e eu não lembro de nunca haver estado nessa situação – isto é, haver estado em uma conferência onde, digamos, um terço dos palestrantes fosse mulheres, muito menos a metade (dependendo de como alguém interpreta “pesadamente distorcido”, no caso)

Os Encontros Conjuntos da Sociedade Americana de Matemática de Janeiro e da Associação Matemática da América tendem a ter um percentual decentemente grande de mulheres palestrantes, algo entre 25 e 30%. No entanto, ocorrem estratificações internas: o quanto mais prestigiosa for a posição ou a sessão, e o quanto mais ela for associada com pesquisa matemática pesada, menor é a porcentagem de mulheres palestrantes.

Há também uma correlação significativa entre a composição de gênero de uma sessão de palestrantes e a presença de uma ou mais mulheres no seu comitê organizador – essas sessões tem quase duas vezes mais mulheres palestrantes, na média.

Portanto, é importante para nós percebermos que um viés implícito não somente afeta o simples número de palestrantes, mas também afeta se nós as selecionamos para a posição de palestrantes principais ou secundárias.

Bacon: Como você espera que as pessoas usem a sua fórmula de probabilidade estatística?

Martin: Na minha visão, usar esse tipo de cálculo tem uma efetividade limitada como ferramente pró-ativa. Transformar uma situação real em um modelo probabilístico é um processo bastante imperfeito, e as pessoas podem corretamente criticar detalhes dessa transformação ao ponto de tornar a mensagem fundamental obscura. No entanto, quando as pessoas escolhem resistir à ideia de desigualdade de gênero baseadas em afirmações probabilísticas (“o fato de haver poucas mulheres acontece por acaso”), então o feitiço pode se virar contra o feiticeiro. Eu gosto da ideia de usar essa ferramenta probabílistica em resposta a essas afirmações – “Ah, muito bem, se você vai sugerir que usar probabilidade é a forma correta de examinar essa situação, vamos ver como você se sai...!”

 

Autoria: Lauren Bacon

Tradução e adaptação: Carolina Moehlecke

 

[*] O título publicado inicialmente era uma tradução literal do original em inglês "The Odds That a Panel Would 'Randomly' Be All Men Are Astronomical". A palavra "odds" tem um significado específico em inglês, e nesse caso, isso significa que um painel totalmente masculino ter sido selecionado aleatoriamente é estatisticamente muito improvável. 

[1] Nos Estados Unidos.

[2] Aguarde o nosso post com a tradução da explicação matemática utilizada por Greg Martin.

[3] Áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Carolina Moehlecke